“O Galaxie para mim ainda representa, se olharmos para trás, a busca pela excelência total em qualidade e satisfação de produto, o que foi priorizado na época pela Ford e definitivamente alcançado. Os amantes do Galaxie, com certeza, são pessoas que têm um critério definido de ‘qualidade de vida’, pois prezam, acima de tudo, pelo conforto e o bem-estar, que é em sua essência, o que esses carros proporcionam”. • André Mauro Tedesco. Caxias do Sul, RS.
“De imediato inventei uma desculpa esfarrapada para sair do plantão e viajei 35 quilômetros até ter uma visão… foi amor à primeira vista! Aquele Galaxie 500 LTD 1969, meio torto, com o teto de vinil rasgado e soltando tiras, com uma garrafa de Coca-Cola cheia de gasolina, ligada direto… era tudo o que eu queria!” • Austin Saraiva. Belo Horizonte, MG
“Quando dei por mim, tinha dois Galaxies e passei para a melhor parte: encontrar outros amigos, que por suas histórias de vida, de desejos e sonhos, por razões e circunstâncias diferentes, desenvolveram o mesmo desejo, e porque não dizer, sonho”.
• Giovani Duarte Oliveira. Criciúma, SC
“Só de entrar e sentir o cheiro fiquei possuído por uma sensação nunca sentida antes, pois os carros na sua grande maioria tinham os bancos revestidos em vinil, que tem um cheiro característico. Mas o LTD era diferente. Era perfume e dos bons. Que interior é esse? Que banco lisinho, isso aqui é um sofá!” • Dino Dragone. São Paulo, SP
Os depoimentos apaixonados de diversos “galaxeiros” (e “galaxeiras”) de todo o Brasil fazem parte de apenas um dos diversos capítulos de “Galaxie — Grandes carros, grandes amigos”, lançamento da Editora Alternativa. Escrito a quatro mãos, o livro tem como autores Gelson Joni Mathias Teixeira — um gaúcho especialista (e claro!) apaixonado por esse eterno “top de linha nacional” — e Marcelo Ávila Marques — que, segundo Gelson, tornou-se um “Bacharel em Galaxie (ou quase isso)”, depois de participar do projeto.
A obra “começa pelo começo”, contando um pouco da história da Ford Motor Company, seu criador, Henry Ford e a instalação de uma filial em solo brasileiro, em 1919. O seguinte é dedicado à criação do Galaxie nos Estados Unidos no final dos anos 1950, cujo design era ainda bem diferente do modelo lançado no Brasil em 1967 — baseado no norte-americano do ano anterior.
Sinhozinho Malta e seu Landau Limousine com chifre no capô
Os capítulos seguintes contam a história do Galaxie brasileiro ano a ano, desde a estreia, até o final da produção, no inicio de 1983. Aqui o leitor encontra todos os detalhes técnicos e diferenças entre os modelos da “Família”: Galaxie 500, LTD e Landau.
Propagandas de época e séries especiais são o tema do capítulo seguinte. Destaque para o Galaxie ambulância, modelo adaptado pela própria Ford apenas para uso interno na fábrica. Na época foi noticiado que era um estudo para o lançamento de um modelo SW.
“O Galaxie na arte” traz as especiais participações do modelo no cinema — com muitas aparições em filmes americanos e também brasileiros — e na TV. Quem não se lembra do Landau com um enorme cifre no capô, pertencente ao personagem Sinhozinho Malta, na novela Roque Santeiro?
O Rei do Galaxie e seu museu
Uma das mais emocionantes passagens é a que conta a história do “Rei do Galaxie”. Proprietário da Concessionária Ford Novocar, de Novo Hamburgo-RS, Arno Berwanger ganhou esse título por puro merecimento. Sua revenda chegou a ser responsável por 8% das vendas do modelo em todo o Brasil. Isso graças não apenas a seu talento para os negócios, mas também pelo amor que nutria pelo Galaxie, a ponto de criar o Museu do Galaxie, que reuniu 22 exemplares de vários anos e modelos, inclusive 8 exemplares fabricados em 1967 (ano de lançamento), um de cada cor.
Um capítulo inteiro conta a trajetória dos “Amigos do Galaxie”, um grupo de admiradores e proprietários que nasceu despretensiosamente em 2002, em São Leopoldo-RS. Hoje o grupo reúne fãs de todo Brasil, tendo participado em 2009 da realização do célebre 1º Encontro Nacional do Galaxie, que reuniu nada menos que 215 automóveis da “Família”, em Campinas-SP.
“Galaxie — Grandes carros, grandes amigos” tem grande formato (assim como o automóvel tema), é impresso em papel couchê de ótima qualidade, totalmente colorido e com muitas imagens. Um documento para consulta permanente e que interessa não apenas aos amantes do Galaxie, mas a qualquer pessoa que acompanhe a história da indústria automobilística nacional, na qual o Galaxie representa uma de suas principais páginas.
Galaxie — Grandes carros, grandes amigos” Gelson Joni Mathias Teixeira e Marcelo Ávila Marques
338 p., formato 21X28 cm
Editora Alternativa
A venda através do e-mail: galaxie@alternativa-rs.com.br
PORTO ALEGRE | 
Que artigo bacana sobre o livro “Galaxie — Grandes carros, grandes amigos”! É ótimo ver como o texto já consegue capturar a paixão dos “galaxeiros”, citando desde o André Mauro Tedesco falando da busca pela excelência até o Dino Dragone descrevendo aquele “perfume” único e o banco-sofá. Gosto de como o artigo dá uma ideia clara da profundidade do livro, cobrindo a história desde a Ford no Brasil até detalhes como o Galaxie ambulância, a participação em novelas com o Sinhozinho Malta, e as diferenças entre os modelos 500, LTD e Landau.
Achei particularmente interessante a menção ao “Rei do Galaxie”, Arno Berwanger, e a dedicação que o levou a criar o Museu, sem contar a trajetória do grupo “Amigos do Galaxie” e o encontro nacional. O artigo consegue nos dar uma boa ideia do quão detalhada e bem produzida é a obra, com suas imagens e papel de ótima qualidade. Talvez, para quem não é um entusiasta tão dedicado, um trecho que contextualizasse um pouco mais a Galaxie dentro de um cenário socioeconômico da época, além da mera descrição do carro, pudesse ampliar ainda mais o impacto do livro, mas, de qualquer forma, parece ser um item indispensável para quem acompanha a história da indústria automobilística brasileira.
É interessante notar como os depoimentos, embora carregados de paixão, apresentam perspectivas diversas sobre a “excelência total em qualidade” que André Mauro Tedesco afirma ter sido alcançada. A paixão de Austin Saraiva por um Galaxie “meio torto” e com “garrafa de Coca-Cola cheia de gasolina” sugere que o verdadeiro encanto do modelo pode ter residido mais na experiência e no status que ele proporcionava do que na sua perfeição construtiva, colocando em questão a objetividade dessa “qualidade de vida” mencionada.
É inegável a paixão que o Galaxie desperta, como o depoimento do Dino Dragone sobre o “perfume” do interior demonstra. Contudo, me questiono se a afirmação de que a Ford “definitivamente alcançou” excelência total em qualidade e satisfação de produto, como mencionado pelo André Mauro Tedesco, não seria uma perspectiva um tanto romantizada pelos entusiastas. Seria interessante ver se o livro também explora as eventuais críticas ou os desafios que o modelo enfrentou ao longo de sua trajetória no mercado nacional, para além dessa adoração.
O artigo destaca com clareza a singularidade do Ford Galaxie no cenário automotivo brasileiro, evidenciada tanto pela busca de “excelência total em qualidade”, conforme André Mauro Tedesco, quanto pela paixão de seus admiradores. A abordagem da obra em detalhar a trajetória do modelo, incluindo aspectos culturais como o Landau de Sinhozinho Malta e a formação do grupo “Amigos do Galaxie”, configura um valioso registro da sua relevante contribuição à história industrial e social do país.
É inegável a paixão que o Galaxie desperta nos seus admiradores, e os depoimentos no artigo são um reflexo claro disso. No entanto, quando André Mauro Tedesco afirma que o carro representava a “busca pela excelência total em qualidade e satisfação de produto […] definitivamente alcançado” pela Ford, fico com uma pulga atrás da orelha. A descrição do Galaxie 500 LTD 1969 de Austin Saraiva, “meio torto, com o teto de vinil rasgado e soltando tiras, com uma garrafa de Coca-Cola cheia de gasolina, ligada direto”, parece-me contradizer um pouco essa ideia de “excelência total” em um sentido mais objetivo. Talvez a excelência não estivesse na perfeição técnica intocável, mas sim na capacidade do carro de inspirar tal devoção e vontade de restaurar e cuidar, superando suas falhas.
A forte ênfase no aspecto comunitário, evidente no subtítulo “Grandes carros, grandes amigos” e nas histórias como a de Giovani Duarte Oliveira e do grupo “Amigos do Galaxie”, é um ponto muito interessante. Me leva a pensar se o status do Galaxie como “eterno top de linha nacional” e “principal página” da indústria automobilística brasileira não se deve tanto às suas qualidades intrínsecas quanto à capacidade de criar e nutrir essa comunidade apaixonada e nostálgica. Afinal, as sensações descritas por Dino Dragone, de “perfume e dos bons” e um banco que era um “sofá”, embora vívidas, são experiências bastante subjetivas e provavelmente magnificadas pelo afeto.
O livro parece ser uma obra bastante abrangente, abordando desde a história de Henry Ford até as participações do Galaxie na arte e o fascinante caso do “Rei do Galaxie” e seu museu. Contudo, ao se propor como “um documento para consulta permanente” que interessa “a qualquer pessoa que acompanhe a história da indústria automobilística nacional”, pergunto-me se não há uma tendência a superestimar a universalidade do apelo do Galaxie. Apesar de sua importância para um segmento específico e de luxo na época, é válido questionar se a sua “excelência” ou relevância se estende de forma equitativa a todas as facetas da nossa diversa história automotiva, ou se ele ocupa um lugar de destaque mais consolidado na memória e no coração de um grupo seleto de entusiastas.